Profecia Maia 2012 - B'olon Yokte' K'uh



"Should we not lament in our suffering, grieving for the loss of our maize and the destruction of our teachings concerning the universe of the earth and the universe of the heavens? We are agitated by these sharp blows. We are moved to sorrow, sending up our pleas to Ah Bolon Yocte of the Nine Paths, and to Ah Bolon Kanan, of the Nine Precious Gifts... 
[…] The Nine shall arise in sorrow, alas... And when over the dark sea I shall be lifted in a chalice of fire, to that generation there will come the day of the withered fruit. There will be rain. The face of the sun shall be extinguished because of the great tempest. Then finally the ornaments shall descend in heaps. There will be good gifts for one and all, as well as lands, from the Great Spirit, wherever they shall settle down."

Book of Chilam Balam of Tizimin


Imaginem que daqui a 1000 anos, os arqueólogos do futuro desenterram as ruínas de uma qualquer igreja católica e descobrem treze representações de divindades que se julgam terem sido importantes na já desaparecida religião cristã. Não havendo inscrições que tenham sobrevivido que descrevessem o nome e características destas figuras, decidem nomeá-las pelas letras do alfabeto. Foi exactamente isso que Paul Schellhas fez em 1904 em relação a uma série de divindades maias, algumas das quais foram entretanto reconhecidas, mas outras continuando sem tradução até hoje. 


Uma dessas divindades, o chamado deus L, de aparência anciã, é uma figura proeminente na iconografia do Período Clássico Maia, com os seus ornamentos de jaguar, o seu cigarro característico e o seu chapéu largo. Identificado como sendo o Senhor do Inframundo, o seu nome original iludiu até agora os estudiosos.  Investigações recentes de textos em cerâmica, e de representações em Palenque e Cacaxtla, sugerem que esta divindade seja associada a B'olon Yokte' K'uh, a mesma que é referida no monumento 6 de Tortuguero, numa inscrição acerca do fim do 13º baktun.  É também identificado como estando representado no "Vaso dos Sete Deuses". 


O nome B'olon y-Ok pode ser traduzido como "Nove são os seus passos" ou "Nove são os seus pés" e B'olon Yokte' K'uh é muitas vezes encarado como um nome colectivo, referindo-se a um grupo de 9 divindades, que seriam os Senhores que governam os 9 níveis do Inframundo, grupo este que é comunmente referido nos textos proféticos de Chilam Balam e associado à prática da guerra e do sacrifício. No Códice de Dresden, aparece a atacar com uma faca o desarmado deus N. 
 

O deus L é também interpretado como sendo a némesis do deus do milho (ressuscitado na primavera) e aquele que governa a parte mais negra do ano, dedicada a trocas comerciais de longa distância, conquistas militares e a colheita de cacau de inverno e foi representado por vezes como um escorpião negro, com as mãos erguidas para o céu como as garras do escorpião. 


É assim uma figura essencial no mito da criação do mundo, sendo que o seu culto parece ter sobrevivido até hoje na figura em madeira de Maximon, adorado por exemplo em Santiago de Atitlán e que, no Período Pós-Clássico, se acreditava ser aquele que presidia aos cinco dias finais do ano (Wayeb) e o qual era ritualmente morto, desmembrado e amarrado no final desse período, de modo a permitir a entrada do Ano Novo. 

Estará aqui a chave de uma possível interpretação da inscrição no monumento 6 de Tortuguero? Será este deus uma encarnação da eterna luta entre as trevas e a luz, que está sempre presente, mas que será mais evidente nas transições entre grandes ciclos do universo? Será o fim do baktun uma reencenação a grande escala daquilo que acontece todos os anos na Terra e que permite que a Humanidade continue a viver com base no que essa mesma Terra, regenerada e ressuscitada, lhe fornece?


Ou, dado o carácter declaradamente negro desta divindade, teremos nós algo a temer da sua manifestação no dealbar desta nova época que se iniciará a 21 de Dezembro de 2012? Mesmo acreditando neste caso, o certo é que, se há alguma mensagem da religião maia que sobreviveu até aos nossos dias, é que a Natureza e o Homem vivem em ciclos de criação, destruição e renascimento. E tal como podemos ler no excerto do livro de Chilam Balam de Tizimin que apresentamos no início da nossa crónica, mesmo no meio da tormenta nunca esmorece a esperança de um novo dia, de um futuro melhor. 

O fascínio que milhões de pessoas têm pelas profecias maias parece mostrar que muitos anseiam por um novo início, uma época de regeneração. Será isso possível sem destruição? Será possível a luz ser reconhecida sem antes terem sido as trevas a dominar a face da Terra? Tal como toda a mãe bem o sabe, não há nascimento sem dor. E sem sacrifício, não há obra... 

Chegamos ao fim da nossa série de crónicas acerca da profecia maia de 2012 com muitas mais questões do que respostas. Será que um dia o sentido da profecia será revelado? Pela sua própria natureza, uma profecia é escrita e transmitida de forma velada, encriptada e enigmática. Talvez cada um de nós encontrará em si mesmo o sentido e a importância que quer dar à profecia. E cada um de nós encontrará a sua resposta, na medida do que procurou. Pois tal como outro Profeta o disse, dirigindo-se aos seus discípulos: 
"Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvíreis, mas não compreendereis; e, vendo, vereis, mas não percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, e ouviram de mau grado com os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos; para que não vejam com os seus olhos, e ouçam com os ouvidos, e compreendam com o coração, e se convertam, e eu os cure. Mas, bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. Porque em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram."